Nova fase da vida política nacional <br>– possibilidades, limites, perspectiva<br>de luta e análise de razões

João Oliveira (Membro da Comissão Política
do Comité Central
e presidente
do Grupo Parlamentar
do PCP)

Image 21745

Ao longo de seis anos, os trabalhadores e o povo desenvolveram uma intensa luta contra a política dos PEC e do pacto de agressão, subscrito por PS, PSD e CDS-PP e executado pelo governo PSD/CDS.

Foi esta luta de resistência, em condições muito difíceis e contrariando os apelos à resignação e ao conformismo, que conduziu à derrota do governo PSD/CDS-PP, confirmando o valor da luta e a sua importância decisiva.

Os resultados das eleições legislativas de 4 de Outubro de 2015, a nova fase da vida política nacional e o sentido da nossa intervenção no actual quadro político não podem ser desligados dessa luta e da necessidade do seu desenvolvimento.

Foi a luta que conduziu ao isolamento político e social do governo PSD/CDS, à sua derrota eleitoral e à condenação da sua política, determinando a alteração da relação de forças na Assembleia da República.

À luta dos trabalhadores e do povo associou-se a acção decisiva do PCP, que lhe deu expressão institucional, apontando o caminho do afastamento de PSD e CDS do governo.

Apesar de derrotados e tendo mesmo perdido a maioria absoluta de que dispunham, PSD e CDS preparavam-se para se manter no governo, suportados pelas pressões nacionais e internacionais do grande capital e apadrinhados pelo então Presidente da República, Cavaco Silva, que ainda procedeu à sua nomeação para um governo de dez dias.

Perante declarações de derrota e desistência, desorientações e hesitações do próprio PS, o PCP apontou outro caminho, afirmando que era possível dar uma expressão política e institucional à derrota eleitoral do governo PSD/CDS e à condenação da sua política, afastando-o do poder e correspondendo a essa expressão de vontade de mudança manifestada pelos portugueses.

Dar o golpe final no governo PSD/CDS significou dar expressão institucional à luta e concretizar um dos seus objectivos primeiros.

Fizemo-lo em coerência com o percurso de intervenção do PCP e a sua história, respeitando o seu compromisso de sempre com os trabalhadores e o povo de lutar em todos os planos pela defesa dos seus interesses e direitos.

Foi essa conjugação entre a luta de massas e a acção institucional que permitiu interromper a acção destruidora de PSD/CDS e abrir caminho à reposição e conquista de direitos, ainda que de forma limitada, por serem muitas as limitações da actual relação de forças.

Foi essa conjugação entre a luta de massas e a acção institucional que tornou visíveis, de forma mais imediata, os resultados da luta, resultados que dão ânimo e confiança para que a luta prossiga.

Por outro lado, o quadro político que resulta da solução política encontrada confirma que esta não é a solução política do PCP. A solução política encontrada resulta e está condicionada pela actual relação de forças e pelos compromissos e opções que o PS mantém, não correspondendo aos objectivos por que lutamos de ruptura com a política de direita e concretização de uma política alternativa, patriótica e de esquerda.

A nova fase da vida política nacional traduziu-se na entrada em funções de um Governo minoritário do PS, com o seu próprio programa, incorporando elementos de resposta a problemas imediatos e urgentes dos trabalhadores e do povo identificados na Posição Conjunta.

A nova fase da vida política nacional não implicou a celebração de qualquer tipo de acordo de incidência parlamentar ou a constituição de uma pretensa maioria de esquerda.

O PCP não está comprometido com o Programa do Governo, não se diluiu, não está condicionado por qualquer acordo de incidência parlamentar e não é força de suporte do Governo.

O PCP mantém a sua independência e autonomia e toma as suas decisões em função do que entende melhor servir os interesses dos trabalhadores e do povo.

Não fizemos nossa a política do PS, não desistimos do nosso Programa, nem do objectivo imediato de concretizar a política alternativa, patriótica e de esquerda, pela qual continuamos a lutar. 

Questão
fundamental

A nova fase da vida política nacional reflecte toda esta realidade contraditória, em que as possibilidades de avanço, de reposição e conquista de direitos enfrentam limitações e constrangimentos.

Tais limitações e constrangimentos resultam dos compromissos e opções do PS de não romper com a política de direita, não enfrentar os constrangimentos e condicionamentos externos, de não enfrentar o domínio do capital monopolista sobre a vida nacional.

Ao mesmo tempo, vai-se tornando cada vez mais difícil, para o Governo, compatibilizar a aceitação das imposições e dos constrangimentos internos e externos com uma política de reposição e conquista de direitos, de resposta aos problemas dos trabalhadores e do povo.

A questão que se coloca não é de prazos ou de adivinhação de prazos do quadro político existente; a questão é a necessidade de dar resposta aos interesses e aspirações dos trabalhadores e do povo e aos problemas do País, é a adopção de uma política que inverta o rumo de declínio e retrocesso imposto pelo anterior governo PSD/CDS.

A questão fundamental que se coloca na presente situação nacional não é, apenas, a de evitar que PSD e CDS regressem ao poder mas, sim, a de impedir que a sua política seja desenvolvida, seja pela mão de quem for, seja por PSD e CDS, seja pelo PS.

Perante esta realidade, o que há a fazer é levar tão longe quanto possível os avanços, retirar o máximo desta relação de forças, conseguindo tudo o que puder ser conseguido de positivo para os trabalhadores e o povo; fazer de cada uma dessas medidas e conquistas um factor de ânimo, para que a luta avance e se desenvolva em torno da resposta que ficou a faltar ou de reivindicações mais avançadas; partir de cada conquista para desenvolver a luta, no sentido de criar condições para uma nova relação de forças, que seja ainda mais favorável aos trabalhadores e ao povo, com o reforço da influência política, social e eleitoral do PCP. 

A luta
conta

Sabemos que não seria indiferente, para o desenvolvimento da luta, manter ou afastar o governo PSD/CDS.

Como já foi dito neste Congresso, não partilhamos a ideia de que quanto pior, melhor, porque sabemos que, quando estão pior os trabalhadores, não está melhor a sua luta nem estão melhores as condições para atingirem os seus objectivos.

Sabemos que os lutadores também precisam de ver resultados da luta que travam e que o desenvolvimento da luta não pode prescindir deles.

Mas isso não significa que devemos dar-nos por satisfeitos com a situação actual.

A história e a nossa experiência confirmam que nenhuma possibilidade se transforma automaticamente em conquista, dispensando a intervenção dos trabalhadores e das massas na sua concretização.

Colocam-se, por isso, ao nosso Partido redobradas exigências de iniciativa política, de acção e intervenção junto dos trabalhadores e das populações, de esclarecimento e valorização dos resultados alcançados com a luta, e de mobilização para que ela se desenvolva de forma a que nenhuma possibilidade de repor e conquistar direitos seja desperdiçada.

Exige-se a nossa acção para que, perante a insuficiência ou limitação das medidas tomadas, se dinamize e desenvolva a luta, a partir dos resultados obtidos, com a perspectiva de alargar e levar mais longe a resposta aos problemas.

Exige-se a nossa acção para contrariar linhas de atentismo e de expectativa, afirmando cada reposição ou nova conquista de direitos como resultado da luta e não como uma espécie de dádiva do Governo ou da Assembleia da República.

Durante anos, ouvimos os papagaios do capital anunciarem a morte do nosso Partido ou remeterem-no para segundo plano, dizendo que era um partido do contra, que não contava para nada, que a sua acção valia coisa nenhuma.

Durante anos repetiram as ideias falsas das eleições para primeiro-ministro, os discursos das inevitabilidades e da falta de alternativas, desvalorizaram a nossa luta, dizendo que não servia para nada e que era inconsequente.

Muitos desses só há um ano descobriram que, afinal, as eleições servem para eleger deputados e que todos os deputados do PCP, da CDU, contam para defender os interesses dos trabalhadores e do povo.

Outros descobriram no dia 10 de Novembro de 2015, à porta da Assembleia da República, perante a derrota do governo PSD/CDS, que afinal a nossa luta conta mesmo e que vale a pena lutar.

A todos esses queremos dizer que continuaremos a lutar pela construção de uma sociedade socialista, dizendo, com as palavras do camarada Álvaro Cunhal, que é nossa «profunda convicção de que é justa, empolgante e invencível a causa por que lutamos»!

 



Mais artigos de: Em Foco

Unidade, confiança e luta

Um colectivo unido, determinado e consciente da exigência das tarefas que tem pela frente esteve reunido no fim-de-semana em Almada, no XX Congresso do Partido Comunista Português. Em três dias de profunda reflexão e debate, os comunistas definiram as orientações políticas para os próximos anos, aprovaram um conjunto de medidas de intervenção e para o reforço de organização, elegeram o Comité Central e estreitaram ainda mais os laços de camaradagem que os unem.

Luta, solidariedade e revolução

Moções sobre a luta de massas como factor da transformação social, sobre a paz e a solidariedade internacionalista e sobre a Revolução Socialista de Outubro foram aprovadas pelos delegados à assembleia magna do PCP.

Órgãos do Congresso

Os órgãos do Congresso e a Mesa da Presidência foram aprovados por unanimidade na sessão de abertura dos trabalhos, na sexta-feira de manhã.

À altura das exigências

Camaradas delegados, estimados convidados, membros das delegações internacionais, representantes institucionais e diplomáticos. A todos, saudações do Partido Comunista Português. Compreenderão que a nossa saudação maior se dirija...

Composição do Comité Central eleito<br>no XX Congresso

O Congresso, na sessão reservada aos delegados, a 3 de Dezembro de 2016, elegeu o Comité Central. Participaram na eleição 1131 delegados, sendo o Comité Central eleito por maioria, com quatro votos contra e onze abstenções.
A eleição fez-se por voto secreto, por imposição da antidemocrática «Lei dos Partidos».
Publicamos de seguida os nomes e biografias dos eleitos. A negrito, estão as biografias dos camaradas que não integravam o Comité Central cessante.

Composição<br>dos organismos executivos<br>do Comité Central

O Comité Central eleito no XX Congresso realizou a sua primeira reunião plenária no dia 3 de Dezembro de 2016 e elegeu os organismos executivos, a Comissão Central de Controlo e o Secretário-geral.
A Comissão Política foi eleita por unanimidade e o Secretariado do Comité Central por maioria, com uma abstenção. A Comissão Central de Controlo foi eleita por unanimidade.
O Secretário-geral do Partido, Jerónimo de Sousa (que entendeu não votar na sua própria eleição), foi eleito por unanimidade.

Relatório da Comissão Eleitoral

O Comité Central é o organismo que dirige a actividade do Partido no intervalo entre Congressos, assumindo a responsabilidade de traçar, de acordo com a orientação e resoluções dos congressos, a orientação superior do trabalho político,...

Este é o nosso tempo

No limiar do encerramento dos trabalhos do XX Congresso, podemos afirmar que alcançámos com êxito os objectivos a que nos propúnhamos. Desde logo, pelo grau de envolvimento e participação de delegados. A sua presença e participação permanentes dignificaram...